Invocação de Memórias de Mértola
Paulo Anjos – sobre a simpatia por Mértola
Mértola é o Cais fluvial mais ocidental do mediterrâneo e um dos lugares da minha vida. Gosto de pensar que também sou d’aqui.
Nos anos 80 Mértola era intensa, cosmopolita. Nas mesas do café Guadiana e no Sanremo ouviam-se várias línguas. Varias gentes.
O campo arqueológico trazia a Mértola o mundo inteiro.
Do Castelo à Mesquita e até ao largo, parecia uma pitoresca Montmartre. O poder local democrático revolucionava o Concelho, nas mãos de quem lhe queria bem.
(Respirava-se um tempo novo, a minha vénia à memória de Serrão Martins , a Claudio Torres e tambem à memoria de José Mattoso)
Eu era criança e o bairro das pré-fabricadas importado da Holanda , onde morava a minha Ina, parecia-me uma aldeia de legos.
Fazia-se nas rampas íngremes das colinas corridas de carrinhos de rolamentos, o executivo camarário fechava as ruas para a criançada e até organizava um Troféu anual.
Eu era criança e Mértola uma espécie de livro de histórias, reais.
No largo sentado debaixo do seu chapéu estava um pintor , daqueles a sério (Mário Elias),lavrando nas suas telas, do outro lado o Senhor Nicolau com o carrinho de gelados artesanais, mais saborosos que os da Olá.
À minha mesa o Claud, um Belga cunhado da minha Ina que num francês aportuguesado quanto baste, me falava do Anderlecht e de ciclismo.
O Claud tinha um dente d’ouro como o pirata do Sítio do Pica Pau Amarelo, reformado de carteiro na Bélgica, também era pintor e cantava umas canções estranhas com o meu irmão, sei agora que eram do Brell. Gostava muito do Claud.
À tarde, quando não era verão, Mértola tinha os jogos do Clube futebol Guadiana, equipavam de vermelho e jogava lá outro cunhado da minha Ina(centralão), iamos ver a bola, eu o meu pai, o meu tio e o Jorginho.
Gostava daquele futebol sem bancada, sem relva, e sem as rivalidades do futebol da minha cidade. Hoje desencontrada desses tempos e tomando nas mãos as rédeas do seu destino, porque como no Marão mandam os que cá estão
Mértola escolheu outros caminhos, deixou para trás a Vila Museu, tornou-se Capital, a da caça.
Li outro dia que, tentam formalizar junto da Unesco uma candidatura…hummm creio que, no caso, a bota não deve bater com a perdigota mas, espero que corra bem. Às vezes um passo atrás são dois à frente.
Mesmo assim, gosto de pensar que também sou d’aqui, Mértola para mim é uma Terra encantada. Será sempre.
Paulo Anjos



