artigos
Início
Destaque

Tarteso, um reflexo no Guadiana: o documentário que mergulha nas origens de uma civilização perdida

Tarteso, um reflexo no Guadiana: o documentário que mergulha nas origens de uma civilização perdida

Canal Extremadura lança uma viagem às raízes da misteriosa cultura pré-romana que moldou o sudoeste peninsular — e cujos vestígios mais relevantes surgem, cada vez mais, ao longo do Vale do Guadiana


Há um rio que guarda memórias muito mais antigas do que imaginamos. O Guadiana — o nosso Guadiana — foi, há mais de dois mil e quinhentos anos, palco de uma das civilizações mais enigmáticas do mundo antigo: Tarteso. É esta a premissa do documentário “Tarteso, un reflejo en el Guadiana”, produzido pela Canal Extremadura e disponível na plataforma EXPlay, que propõe uma viagem apaixonante às origens desta cultura pré-romana e ao rasto que deixou no sudoeste da Península Ibérica.

O documentário reúne mais de uma vintena de arqueólogos, historiadores, restauradores-conservadores, especialistas do CSIC e investigadores de seis universidades espanholas, com a colaboração do Museu Arqueológico Nacional, do Museu Arqueológico Provincial de Badajoz, do Centro de Interpretação do Tesouro de Aliseda, do Instituto do Património Cultural de Espanha e da Real Academia de História, entre outros. É, por isso, muito mais do que um produto televisivo: é um estado da arte da investigação tartéssica.

Fenícios, indígenas e um povo que nasceu na foz do Guadalquivir

Tarteso nasceu no século IX a.C. da fusão entre os fenícios e as populações indígenas que viviam nas margens do Guadalquivir, tendo-se estendido progressivamente pelo sudoeste ibérico. Durante décadas, esta civilização foi conotada exclusivamente com a Andaluzia ocidental. Mas a arqueologia dos últimos anos veio alterar radicalmente este mapa.

Até há não muito tempo acreditava-se que os tartéssios eram exclusivos da Andaluzia ocidental, até que foram sendo descobertos um a um yacimientos na província de Badajoz que ampliavam a presença desta civilização até ao Guadiana. E com ela, a possibilidade de que a sua influência tenha chegado a Portugal.

O Vale Médio do Guadiana como novo centro do mundo tartéssico

É precisamente no Vale Médio do Guadiana que se concentram hoje algumas das descobertas arqueológicas mais relevantes da Península. O documentário da Canal Extremadura centra-se em sítios como Medellín, Cancho Roano, La Mata, o Tamborrío, Cerro Borreguero e Aliseda — enclaves arqueológicos que permitem reconstruir o legado tartéssico através da sua arquitectura, ourivesaria, trocas comerciais, crenças religiosas e incipiente sistema de escrita.

Mas o sítio que mais tem capturado a atenção do mundo científico é o de Casas del Turuñuelo, em Guareña (Badajoz). Escavado desde 2015, representa o maior achado arqueológico dos últimos anos em Espanha e confirma o fim desta civilização — a primeira do Ocidente — há 2500 anos no Vale do Guadiana. As construções do Turuñuelo foram destruídas, incendiadas e seladas com argila pelos próprios habitantes no final do século V a.C., perante a invasão iminente de povos celtas do norte — um acto de encerramento voluntário que, paradoxalmente, preservou tudo para a posteridade.

No edifício subsistem os seus dois pisos, com seis metros de altura, em adobe sobre fundações — um caso de estudo excepcional que tem revelado informação arqueológica desconhecida e inédita sobre as técnicas construtivas tartéssicas.

Os primeiros rostos de Tarteso

As campanhas de escavação no Turuñuelo têm produzido descobertas que ecoam em todo o mundo académico. Em 2023, foram descobertas as primeiras representações humanas conhecidas da cultura tartéssica: cinco relevos figurados do século V a.C., dois deles quase completos, correspondendo a figuras femininas adornadas com brincos de ourivesaria tartéssica. O achado foi referido como um dos dez marcos mais importantes da arqueologia mundial em 2023.

Em 2024, a VI campanha trouxe nova surpresa: uma tabuinha de xisto na qual, acompanhando figuras de três guerreiros tartéssicos, foi encontrado um conjunto de letras que poderá constituir uma espécie de dialecto, com características próprias do território e uma excepção relativamente às restantes escritas paleohispânicas.

Uma janela aberta para Portugal

Para os leitores do Baixo Guadiana, este documentário tem uma ressonância especial. Embora nos últimos anos as investigações tenham colocado o foco no Vale Médio do Guadiana, Tarteso pode ter-se estendido até Portugal. A margem portuguesa do rio — de Alcoutim à foz — integra a mesma bacia cultural e geográfica onde esta civilização floresceu e se apagou.

O Guadiana não é apenas uma fronteira. Foi, durante séculos, uma estrada. E as suas margens guardam, talvez, muito mais do que sabemos.


“Tarteso, un reflejo en el Guadiana” está disponível gratuitamente na plataforma EXPlay — Canal Extremadura: canalextremadura.app

Créditos: documentário produzido por Canal Extremadura. Investigação arqueológica: Instituto de Arqueología de Mérida (IAM-CSIC), coordenada por Sebastián Celestino Pérez e Esther Rodríguez González.