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Saramugo em Perigo: Novas Barragens nos Afluentes do Guadiana Ameaçam Espécie Criticamente Ameaçada

Saramugo em Perigo: Novas Barragens nos Afluentes do Guadiana Ameaçam Espécie Criticamente Ameaçada

«O Guadiana Digital tem acompanhado ao longo dos anos a luta pela sobrevivência do Saramugo, o menor e mais ameaçado peixe autóctone do nosso rio. Em junho de 2026, essa luta entrou numa fase crítica


Vila Real de Santo António — O Saramugo (Anaecypris hispanica) é um dos peixes mais raros e menos conhecidos da Península Ibérica. Endémico da bacia hidrográfica do Guadiana, este pequeno ciprinídeo de água doce — raramente ultrapassa os 7 centímetros — enfrenta hoje uma ameaça concreta e iminente: a construção de duas barragens projetadas pela Empresa de Desenvolvimento e Infra-Estruturas do Alqueva (EDIA) precisamente nos afluentes onde a espécie ainda sobrevive.

O que é o Saramugo?

Classificado como espécie em perigo crítico no Livro Vermelho dos Peixes Dulciaquícolas de Portugal Continental (ICNF/FCUL, 2023), o Saramugo é considerado o peixe de água doce mais ameaçado de extinção em Portugal e na Península Ibérica. A sua distribuição está hoje restrita a troços específicos de afluentes do Guadiana — entre eles a ribeira de Cobres e a ribeira do Vascão — em zonas de águas limpas, com corrente moderada e leito rochoso ou de cascalho. Condições cada vez mais raras num rio progressivamente dominado por albufeiras e regadio intensivo.

A espécie depende de condições muito específicas para sobreviver: água bem oxigenada, variação sazonal de caudal e substratos rochosos onde deposita os ovos na primavera. Um estudo publicado em junho de 2025 por investigadores do MARE, FCUL, CIBIO e cE3c detetou vestígios de ADN ambiental de cinco populações consideradas extintas em vários afluentes do Guadiana — mas classificou-as como “muito frágeis e provavelmente não viáveis a médio prazo”. Qualquer nova perturbação do habitat pode ser definitiva.

Os Projetos em Causa

Em junho de 2026, a associação ambientalista ZERO exigiu a suspensão imediata de dois projetos da EDIA para a construção de barragens nos afluentes do Guadiana: a Barragem de Terges e Cobres, nos concelhos de Beja e Mértola, e a Barragem de Carreiras, enquadradas na estratégia nacional “Água que Une”. A EDIA lançou já o concurso público para o projeto de execução e Estudo de Impacte Ambiental (EIA) da Barragem de Terges e Cobres, publicado em Diário da República, com prazo de submissão de propostas até 20 de julho de 2026 e orçamento de 990 mil euros (acrescido de IVA).

A ribeira de Cobres é precisamente um dos últimos redutos conhecidos do Saramugo em Portugal. Inundar este afluente não é apenas uma intervenção num curso de água — é potencialmente eliminar um dos últimos refúgios de uma espécie que já perdeu a esmagadora maioria do seu território histórico.

Os Impactos Esperados

Os impactos previstos são múltiplos e interligados. O mais imediato é a fragmentação do habitat: as barragens criam barreiras físicas intransponíveis para o Saramugo, impedindo a migração reprodutora e o intercâmbio genético entre populações já de si reduzidas e isoladas. Sem essa conectividade, as populações perdem diversidade genética e tornam-se progressivamente menos resilientes a doenças e alterações ambientais.

A regularização do caudal é outro impacto crítico. Ao suavizar as variações naturais do rio, a barragem elimina as cheias sazonais de que o ciclo reprodutivo do Saramugo depende. As albufeiras promovem ainda o assoreamento progressivo, soterando os leitos rochosos onde a espécie se reproduz e substituindo-os por fundos lodosos onde ela não consegue sobreviver.

Acresce o favorecimento de espécies invasoras. As águas paradas e quentes das albufeiras são o ambiente ideal para carpas, achigãs e gambúsia — peixes exóticos que predam ovos e juvenis de espécies nativas. E é fundamental considerar o efeito cumulativo: o Guadiana já possui as grandes barragens de Alqueva, Pedrógão e Mourão. Cada nova estrutura comprime as populações remanescentes do Saramugo para fragmentos de habitat cada vez mais pequenos e isolados, num processo que os investigadores descrevem como rápido e praticamente irreversível.

Porque é que Preservar o Saramugo Importa?

O Saramugo funciona como um bioindicador de elevada fiabilidade: a sua presença num troço de rio sinaliza que esse ecossistema se encontra em bom estado de conservação — águas oxigenadas, sem excesso de nutrientes, com vegetação ripícola intacta. Onde o Saramugo vive, vivem também lontras, cágados-de-carapaça-estriada e numerosas espécies de invertebrados aquáticos raros. Perder o Saramugo não é apenas perder um peixe; é perder, na prática, um ecossistema inteiro.

Do ponto de vista científico, sendo uma espécie com muito por explorar — desde a estrutura genética das suas populações até à ecotoxicologia —, a extinção representa também a perda irreversível de conhecimento que ainda estava por descobrir. E há uma dimensão patrimonial que não deve ser ignorada: o Saramugo é parte da biodiversidade única do Alentejo e do Algarve, uma herança natural partilhada entre Portugal e Espanha que define a identidade ecológica do Guadiana.

O que Diz a ZERO — e o que Diz a Lei

A ZERO argumenta que estas barragens representam “uma completa contradição com qualquer lógica ambiental e climática”, uma vez que as ribeiras de Terges e Cobres e de Carreiras são linhas de água intermitentes, numa região onde as projeções climáticas apontam para menos precipitação e maior irregularidade de caudais. “A ideia passa por construir mais para ter margem para captar mais, num rio onde já se capta mais do que é sustentável”, afirmou a organização, acrescentando que o Guadiana apresenta já um dos índices de escassez hídrica (WEI+) mais elevados de Portugal, com projeção de agravamento.

A legislação europeia deveria, em teoria, oferecer proteção suficiente. A Diretiva Habitats (92/43/CEE) lista o Saramugo no seu Anexo II, obrigando os Estados-membros a proteger os seus habitats críticos. A Diretiva Quadro da Água exige o “bom estado ecológico” de todas as massas de água. Qualquer projeto que comprometa estes objetivos está sujeito a impugnação legal — um caminho que organizações ambientais já anunciaram estar disponíveis para percorrer.

Um Futuro Ainda em Aberto

O receio de que as novas barragens coloquem em risco o Saramugo tem agora nome, localização e data: ribeira de Cobres, concelho de Mértola, verão de 2026. O EIA ainda vai ser elaborado — o que significa que existe ainda uma janela de oportunidade para que a evidência científica influencie a decisão final.

A história recente não é encorajadora: as populações de Saramugo colapsaram nas zonas a montante de Alqueva após o enchimento da albufeira, num processo documentado e irreversível. Repetir o mesmo erro nos últimos afluentes onde a espécie sobrevive seria ignorar décadas de ciência acumulada. A decisão pertence aos decisores políticos — mas o EIA, a consulta pública e a pressão da sociedade civil são ainda instrumentos com poder real. O Saramugo não tem voz. O processo de licenciamento, por ora, ainda a tem.


Fontes: ZERO (junho 2026); ICNF/FCUL, Livro Vermelho dos Peixes Dulciaquícolas (2023); MARE/FCUL/CIBIO/cE3c, Freshwater Biology (2025); Diário da República, concurso público EDIA (junho 2026). Texto elaborado com apoio de Perplexity AI, com revisão e validação editorial.