Psicólogos alertam para risco de sobrediagnóstico de PHDA em crianças
O risco de diagnósticos precipitados de Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA) em crianças foi o tema central de uma tertúlia promovida pela Delegação Regional do Sul da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP), no dia 3 de julho, no Fórum Municipal Romeu Correia, em Almada.
A psicóloga Rita Antunes alertou que “a PHDA continua a ser subdiagnosticada, mas também corremos o risco do sobrediagnóstico. Nem todas as crianças agitadas têm PHDA e nem todas as crianças com PHDA são agitadas.” A especialista sublinhou que o subtipo predominantemente desatento é frequentemente identificado mais tarde e que o que importa avaliar é “a intensidade, a frequência, a duração e o impacto que tem na vida da criança”, e não um comportamento isolado. Os especialistas identificaram três tipos de apresentação da perturbação: hiperatividade, défice de atenção e uma forma mista que combina ambos os sintomas.
O psicólogo Luís Tavares, que intervém em contexto escolar, defendeu que a resposta deve começar cedo, mas sem precipitação: “Quanto mais cedo conseguirmos identificar as dificuldades e intervir, melhor. Caso contrário, a criança acumula experiências de insucesso que acabam por marcar o seu percurso escolar e pessoal.” Tavares recomendou que se reúna a equipa educativa e os restantes profissionais antes de avançar para uma avaliação formal.
Ambos os especialistas sublinharam que a intervenção não pode centrar-se apenas na criança. Rita Antunes defendeu que “na PHDA é muito importante a estruturação do ambiente, dos contextos”, destacando o papel das rotinas e da articulação entre família, escola e profissionais. Sobre os ecrãs, a psicóloga referiu que a evidência científica não demonstra que provoquem PHDA, embora possam agravar sintomas já existentes. Luís Tavares foi mais longe e alertou para as dinâmicas familiares: “Mais do que os ecrãs, preocupa-me ver estas disrupções familiares. Parece que colocamos a culpa na criança hiperativa, quando muitas vezes o problema é o sistema.”
A iniciativa, moderada por Dinis Catronas, vogal da Delegação Regional do Sul da OPP, integrou o programa “OPP + Próxima”, através do qual a Ordem dos Psicólogos Portugueses promove momentos de reflexão sobre temas relevantes para a prática da psicologia.