A Literatura como Luta Contra o Desequilíbrio: José Carlos Barros Lança “Vocação para os Desastres” em Vila Real de Santo António
A Biblioteca António Vicente de Campinas, em Vila Real de Santo António, foi o palco do lançamento de “Vocação para os Desastres”, a nova coletânea de contos de José Carlos Barros.
O evento reuniu autarcas, editores, críticos literários e uma plateia de leitores fiéis para celebrar a obra do autor, amplamente reconhecido como uma das vozes mais brilhantes e premiadas das letras contemporâneas portuguesas.
O Olhar de Proximidade e a Identidade Local
A abertura da sessão esteve a cargo de Fernando Horta, Vereador do Património Material e Imaterial do município local. No seu discurso de boas-vindas, o autarca destacou a capacidade única de José Carlos Barros em cruzar a universalidade com as raízes locais.
”José Carlos Barros é indubitavelmente um dos nomes mais brilhantes, premiados e respeitados das letras contemporâneas portuguesas. É transmontano, um pouco evorense, cacelense, filho de Monte Gordo, Vila Real, mas certamente um cidadão do mundo que conhece as nossas gentes, a nossa geografia e a nossa identidade“, afirmou Fernando Horta.
O vereador partilhou ainda a sua leitura emocional das 17 histórias que compõem o livro, destacando o conto que aborda o “enigma da vida” e a imagem poética de uma laranjeira que, ao dar três laranjas pela primeira vez em dezembro, é vista como uma árvore de Natal — um detalhe que, segundo Horta, espelha a “excecionalidade da leitura” do autor.
Uma Cúmplice Feliz: O Percurso Editorial
Maria do Rosário Pedreira, editora do grupo Leya (chancela Dom Quixote), subiu ao palco para partilhar os bastidores da sua longa e “feliz cumplicidade” profissional com o escritor.
Relembrando o percurso de Barros desde 2012, com o romance Um Amigo para o Inverno, a editora recordou a consagração do autor em 2021 com o Prémio Leya pelo romance As Pessoas Invisíveis, e a publicação da sua poesia reunida em 2024-
Sobre o novo livro, Maria do Rosário Pedreira explicou que a obra nasceu do resgate de contos dispersos que o autor publicou ao longo dos anos em jornais e revistas:
“O título era desde logo promissor: Vocação para os Desastres. Anuncia imediatamente algo a que nunca resistimos: a desgraça ou a tendência para o abismo. Mas o miolo era ainda melhor do que o título, revelando uma variedade riquíssima de histórias, estruturas e linguagens, com as marcas do estilo muito particular a que o José Carlos Barros nos habituou.”
A Escrita Telúrica e o Protagonismo Feminino
A apresentação detalhada do livro foi conduzida pelo crítico literário João Pedro Matos Fernandes. Numa intervenção emotiva, marcada pela amizade de longa data que o une ao autor, o crítico comparou a força da escrita de Barros à de um dos maiores vultos da literatura nacional.
”Desde que Miguel Torga nos deixou, o Zé Carlos é o mais telúrico escritor português“, defendeu o crítico. Matos Fernandes elogiou a complexidade das personagens, profundamente ligadas à terra e à paisagem moldada pelo homem, e destacou o papel das mulheres nas narrativas do livro, comparando-as às figuras do universo musical de Chico Buarque:
“As mulheres dos contos são heroínas do quotidiano, que especulam sobre o banal. São as personagens principais que os homens têm a mania de achar que são secundárias“.
O crítico encerrou a sua leitura realçando o realismo mágico dos homens “patuscos e palermas” das histórias, como a personagem Ricardo Águas, imobilizada no quilómetro zero da sua própria existência.
O Elogio dos Leitores e o Milagre da Leitura
Visivelmente comovido com as apresentações, José Carlos Barros subiu ao tombo para partilhar as suas reflexões, optando por fazer um elogio àqueles que dão vida aos livros.
”A literatura é, em grande parte, feita pelos leitores. É o leitor que dá o verdadeiro sentido ao livro. O livro é sempre o resultado daquilo que cada leitor traz com a sua experiência individual“, sublinhou o autor.
O escritor Prémio Leya relembrou a sua infância e o “milagre da leitura” proporcionado pelas antigas carrinhas itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian, que visitavam os pontos mais recônditos da província e lhe permitiram “viver várias vidas“.
Ao explicar a génese de Vocação para os Desastres, Barros revelou que procurou encontrar um equilíbrio e unidade entre contos de geografias e tempos muito diversificados. A linha condutora, contudo, acabou por ser a fragilidade humana: “Comecei a perceber que estas personagens pareciam, de facto, estar em desequilíbrio. A nossa vida é andarmos a lutar contra esses equilíbrios instáveis”. O autor deixou ainda uma promessa no ar para os seus leitores, revelando que já tem 28 páginas escritas daquela que poderá ser a sua próxima obra.
Diálogo com o Público: As Raízes da Substância
O evento terminou com um espaço aberto à intervenção do público. Um dos leitores presentes na assistência questionou o autor sobre a cronologia do primeiro conto do livro, elogiando-o como uma das peças literárias mais elevadas do escritor e enaltecendo a sua profunda ligação telúrica às coisas.
José Carlos Barros confirmou que esse texto inaugural é um dos mais recentes da antologia, tendo sido escrito no período pós-pandemia como uma reflexão direta sobre os acontecimentos da Covid-19, contrastando com outros contos do volume que remontam aos tempos da sua juventude.
A sessão literária encerrou em ambiente de tertúlia, com a habitual sessão de autógrafos e conversas informais entre o autor e a sua comunidade de leitores.
Reportagem de José Estêcão Cruz