10 de Junho – Não havia Estado Novo nos poemas de Camões
O poeta José Carlos Ary do Santos, no seu poema «As portas que Abril abriu», a certa altura escreveu: «Não havia Estado Novo nos poemas de Camões». Que quereria dizer e que importância ainda tem a obra de Camões, no contexto do Portugal Moderno com uma diáspora tão alargada, neste dia em que, para além do próprio país, ele é também celebrado ?
Ary escreve essa frase para opor a poesia‑mito do regime à leitura libertadora da tradição portuguesa: em Camões encontra‑se um imaginário de viagem, risco, desejo e dignidade popular, não o credo autoritário, nacionalista e colonial do Estado Novo.
Ou seja: o «25 de Abril» de Ary também passa por resgatar Camões das apropriações ideológicas do salazarismo e devolvê‑lo ao povo e à liberdade.[fenprof]
A frase no próprio poema
No poema «As portas que Abril abriu» (1975), escrito como “hino de liberdade” da Revolução, a passagem surge numa sequência que contrapõe exploração, história colonizada e mar como espaço do povo.
A estrofe prossegue explicitando o sentido: “Não havia estado novo nos poemas de Camões! / Havia sim a lonjura e uma vela desfraldada / para levar a ternura à distância imaginada.”[esrad-mangualde.dge.mec]
Isto sugere que Ary lê Camões como poeta de aventura, afeto e abertura ao mundo, não como cantor do imperialismo fechado e da “raça” que o Estado Novo tentou construir.
Ao dizer que “não havia Estado Novo” em Camões, desmonta a narrativa oficial que fazia de Os Lusíadas um texto fundador da ideologia do regime.[eurocid.mne.gov]
O que Ary parece querer dizer
- Recuperar Camões do uso propagandístico: o regime baptizara o 10 de junho como “Dia de Camões, de Portugal e da Raça”, instrumentalizando o poeta para legitimar nacionalismo e colonialismo.[eurocid.mne.gov]
- Lembrar que a obra de Camões é anterior e maior do que qualquer regime: nela há conflito, crítica, desencanto e humanidade, incompatíveis com a retórica monolítica do Estado Novo.[academiaamazonensedeletras]
- Reinscrever a tradição num horizonte de esquerda: Ary, poeta militante, reapropria a memória cultural (Camões, o mar, a epopeia) para uma narrativa popular e libertária, “dando ao povo o que é do povo”.[academia]
Vários textos escolares e notas de leitura do poema sublinham que «As portas que Abril abriu» narra o percurso da opressão à liberdade e funciona como apelo a manter abertas as conquistas de Abril, o que reforça essa leitura política da frase.[fnac]
Camões no Portugal democrático e na diáspora
Depois do 25 de Abril, o 10 de Junho foi ressignificado como “Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas”, mantendo a centralidade do poeta mas deslocando o foco do império para a língua, a cultura e a diáspora.
A celebração continua a articular “portugalidade”, gênio literário e o espírito aventureiro dos portugueses espalhados pelo mundo, agora entendidos como comunidades que levam língua e cultura, e não como prolongamento imperial.[cercipeniche]
Para milhões de emigrantes, Camões funciona como símbolo de pertença linguística e memória comum — um “ponto de encontro” entre Portugal e as várias comunidades portuguesas. Por isso o Dia de Portugal é hoje um dia tanto do país como das comunidades, com cerimónias oficiais regularmente descentralizadas e prolongadas em cidades com forte presença emigrante.[academiaamazonensedeletras]
Importância literária e simbólica hoje
Literariamente, Camões permanece referência em currículo, edição e crítica: continua a ser “símbolo maior da literatura portuguesa” e um dos “mais perenes símbolos da nação”. A sua obra permite ler em espelho várias tensões que ainda nos atravessam: glória e violência da expansão, sonho e ruína, identidade e exílio, o que a torna fértil para debates contemporâneos sobre colonialismo, memória histórica e identidade nacional.[cercipeniche]
Simbolicamente, a sua figura funciona como eixo para uma ideia de Portugal pluricêntrica: um país pequeno em território, mas largo em língua e comunidades espalhadas pelos continentes. Nesse sentido, a frase de Ary ganha atualidade: recuperar “o Camões sem Estado Novo” é também ler a tradição à luz de um Portugal democrático, crítico e dialogante com a sua própria história — incluindo a da diáspora que hoje o celebra.[academiaamazonensedeletras]
Texto elaborado com o auxílio de Perplexity