A Biblioteca Municipal Vicente Campinas, em Vila Real de Santo António foi ontem o palco escolhido para a apresentação da mais recente obra da escritora Conceição Currito, intitulada “O livro que não pede permissão”. Num final de tarde marcado por uma forte componente emocional, reflexão filosófica e atuações de fado, a autora convidou o público a abandonar o conformismo e a questionar a sociedade atual.
Sendo uma obra de resistência e lucidez, livro, que carrega a premissa “Três Teorias, 40 anos de Zénite, num mundo que insiste em não pensar”, é descrito pela própria autora como um ato de resistência e um confronto íntimo. A obra recusa a validação externa e as explicações prontas, assentando em três teorias (da mente, da consciência e do autismo) que não derivam do percurso académico convencional, mas sim da experiência vivida e da análise da realidade concreta.
Além das teorias, o livro integra 40 “Zénites” — pequenos textos de reflexão de máxima intensidade sobre a vida política, social, psicológica e humana. Conceição Currito deixou claro que o seu objetivo não é impor verdades ou converter opiniões, mas sim «provocar lucidez» e «abrir fissuras nas certezas», oferecendo aos leitores perguntas difíceis em vez de respostas fáceis.
O lançamento contou com a intervenção do médico-psiquiatra Dr. Nelson Pinto Gomes, autor do prefácio. O especialista elogiou a voz «distinta, lúcida e corajosa» da autora, num tempo em que «tantas vezes se repete o já dito». Para o psiquiatra, a escrita de Conceição Currito não procura simplificar o mistério humano nem oferecer conforto imediato, tratando-se de um verdadeiro «gesto intelectual» e uma «afirmação de liberdade».
O evento contou ainda com a presença do vereador Fernando Horta, que destacou o lado autêntico e direto da autora. O autarca sublinhou que, num mundo onde a verdade e a liberdade andam «torpes», este livro apresenta-se como um verdadeiro testemunho de pragmatismo e liberdade interior.
Beneficiando de um ambiente intimista embalado pelo fado, a apresentação revelou-se profundamente pessoal. Fátima Currito, irmã da autora e revisora literária da obra, partilhou memórias de infância, traçando o retrato de uma Conceição criança e adolescente rebelde, resistente a regras, mas dotada de grande imaginação, capacidade argumentativa e de uma força inquebrável perante os fracassos.
Já a educadora e amiga Andreia Palma leu um excerto da obra sobre «a coragem de errar», destacando a mensagem do livro de que o fracasso não destrói, sendo antes uma oportunidade para a aprendizagem genuína e a vivência autêntica, sem máscaras.
A tarde foi brilhantemente intercalada pela voz da fadista Helena Cadeias, sobrinha da autora, com registo de voz ao nível de como melhor se canta no nosso País. Com atuações intensas que transformaram «o silêncio em emoção», a cantora interpretou temas clássicos como “Algemas”, “Amor de Mel, Amor de Fel” e “Ó Meu Amor Marinheiro”, arrancando aplausos e emoção à plateia presente.
No final, ficou o apelo da autora para que “O livro que não pede permissão” não seja apenas lido, mas “vivido e refletido”, encorajando cada leitor a pensar por conta própria.


