O dia de ontem ficou marcado por um quadro hidrológico exigente em toda a bacia do Guadiana. Depois de vários dias de precipitação intensa no interior e no sul da Península Ibérica, as descargas controladas das barragens de Alqueva e do Chança fizeram-se sentir ao longo de todo o curso do rio, com impacto particular nas localidades ribeirinhas do Baixo Guadiana.
O dia de hoje trouxe uma pausa relativa, mas o cenário mantém-se sob vigilância, perante a previsão de nova tempestade a atingir o Algarve.
As descargas do sistema de Alqueva, necessárias para garantir a segurança da infraestrutura, provocaram um aumento significativo dos caudais a jusante. Este acréscimo, conjugado com os contributos naturais dos afluentes, resultou na subida rápida do nível do Guadiana, levando à inundação de zonas ribeirinhas, campos agrícolas e acessos secundários.
Em Mértola, o rio galgou margens em áreas historicamente vulneráveis. As zonas baixas junto ao cais e terrenos agrícolas adjacentes ficaram submersos, condicionando a atividade local.
Embora sem registo de vítimas ou danos estruturais graves, a população acompanhou com apreensão a evolução do caudal, num cenário que reavivou memórias de cheias passadas.
Mais a sul, na fronteira natural entre Portugal e Espanha, Sanlúcar de Guadiana e Alcoutim viveram horas de particular atenção. A subida do nível do rio afetou zonas ribeirinhas, passadiços e áreas de lazer junto à água, levando ao encerramento preventivo de acessos e à suspensão temporária de atividades turísticas e fluviais.
A cooperação transfronteiriça revelou-se essencial no acompanhamento da situação, com autoridades dos dois lados do rio em contacto permanente.
Já no troço final do Guadiana, o impacto fez-se sentir de forma mais alargada. Em Ayamonte, o aumento do caudal provocou a inundação de zonas baixas próximas da foz, afetando áreas agrícolas e alguns arruamentos junto ao rio.
Do lado português, Castro Marim registou cheias nos sapais e zonas envolventes ao estuário, com especial incidência nos acessos rurais e terrenos agrícolas.
Em Vila Real de Santo António, o Guadiana atingiu níveis elevados, condicionando a circulação em áreas ribeirinhas e obrigando à monitorização constante da frente urbana voltada para o rio.
Apesar do impacto visual impressionante, a proteção proporcionada pelo estuário e pelas infraestruturas existentes permitiu mitigar efeitos mais severos no núcleo urbano.
Situações semelhantes foram registadas em locais como Laranjeiras e Guerreiros do Rio, onde o Guadiana voltou a ocupar o seu leito de cheia, isolando temporariamente caminhos e afetando pequenas explorações agrícolas. Nestes territórios de menor densidade populacional, a resiliência das comunidades e o conhecimento do comportamento do rio foram determinantes para reduzir riscos.
O balanço do dia de ontem aponta para danos materiais limitados, mas evidencia a vulnerabilidade persistente das zonas ribeirinhas face a episódios meteorológicos extremos.
Com a previsão de agravamento do estado do tempo nas próximas horas, as autoridades mantêm os planos de contingência ativos, apelando à prudência, à não aproximação às margens do rio e ao acompanhamento das informações oficiais.

O Guadiana dá hoje um curto sinal de tréguas, mas permanece sob observação apertada, num inverno que volta a testar a capacidade de resposta das populações e das infraestruturas ao longo de um dos rios mais emblemáticos do sul da Península.

