As chuvas intensas que marcaram o início do ano trouxeram um alívio raro e muito bem‑vindo ao Algarve, uma região historicamente marcada por ciclos de seca severa.
Depois de vários anos de preocupação crescente com a escassez hídrica, o cenário atual é descrito pelas autoridades como excecional e capaz de garantir o abastecimento público durante dois a três anos, mesmo que não volte a chover de forma significativa.
Reservas de água em níveis históricos
Segundo José Pimenta Machado, presidente da Agência Portuguesa do Ambiente (APA), as barragens do sul do país encontram‑se “praticamente cheias”, um contraste evidente face ao panorama crítico vivido nos últimos anos.
O boletim semanal das albufeiras confirma esta tendência: Portugal continental regista 95% da capacidade total de armazenamento, um valor que se aproxima de máximos históricos.
Mesmo sistemas tradicionalmente mais frágeis, como a albufeira do Arade, apresentam agora níveis muito acima do habitual, situando‑se nos 74% da capacidade. Em alguns casos, como na barragem de Monte da Rocha, foi mesmo necessário proceder a descargas de superfície devido ao enchimento total.
Impacto no Baixo Guadiana
No Baixo Guadiana, onde a dependência das reservas hídricas é particularmente sensível — tanto para o consumo humano como para a agricultura — o novo cenário oferece uma margem de segurança inédita nos últimos anos.
A região, que inclui concelhos como Vila Real de Santo António, Castro Marim e Alcoutim, tem beneficiado diretamente da recuperação das bacias hidrográficas do sotavento. A melhoria dos níveis de armazenamento reduz a pressão sobre os sistemas de captação e permite planear a gestão hídrica com maior estabilidade.
Além disso, o Guadiana, enquanto eixo estratégico para o abastecimento e para a agricultura, apresenta caudais mais regulares, contribuindo para um equilíbrio ambiental que há muito não se verificava.
Gestão responsável continua a ser essencial
Apesar do otimismo, as autoridades sublinham que este é um alívio temporário e não uma solução definitiva. O Algarve continua a ser uma região vulnerável às alterações climáticas, com precipitação irregular e forte pressão turística e agrícola.
Por isso, a APA reforça a necessidade de:
- Manter práticas de consumo eficiente, tanto no setor doméstico como no agrícola;
- Apostar em soluções estruturais, como a dessalinização e o reforço das interligações entre sistemas;
- Monitorizar de forma contínua as bacias mais sensíveis, como as do Arade e do Funcho, que continuam a exigir gestão cuidada.
Um presente tranquilo, um futuro a planear
O Algarve respira agora de alívio. As reservas acumuladas garantem estabilidade no curto e médio prazo, permitindo que a região se concentre em preparar o futuro com mais resiliência.
No Baixo Guadiana, onde a água é um recurso vital para a economia local e para a qualidade de vida das populações, este período de abundância deve ser encarado como uma oportunidade para consolidar estratégias de gestão sustentável.

